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FORRÓ DE PLÁSTICO E RACISMO CULTURAL


Quando chamaram o movimento musical surgido no Nordeste na década de 1990 de “forró de plástico”, conscientemente ou não, cometeram racismo cultural. Eles não podiam tachar os fãs de Mastruz com leite, Calcinha Preta e Limão com Mel de estupidos, burros ou de lixo, porque isso iria contra a ideologia neoliberal vigente, então atacaram o que essas pessoas ouviam.


Nenhuma forma de Arte é tão acessível e importante para um povo quanto a música. Ela encontra-se presente em todos os momentos de nossas vidas, desde a infância até a idade adulta, seja no dia a dia, nas reuniões familiares ou na comunidade. Apregoar que a música que alguém escuta é “lixo” é atentar contra a sua corporeidade e acreditar-se autorizado a dizer qual música alguém deve ou não ouvir é flertar com ideologias de caráter fascista.


Houve aqueles que acreditando estarem muito bem intencionados, disseram que os pobres tanto do Nordeste, quanto das periferias do Centro-Sul ouviam o “forró de plástico” por que não lhe ofereciam algo bom, decente. Como se a história de toda uma classe social pudesse ser reescrita, ao som de Quinteto Armorial ou Uakti.


A elite cultural desse país, trancada em alguns metros quadrados de nossas metrópoles, digerindo as mesmas vozes há quatro ou cinco décadas, nunca se deu ao trabalho de ouvir Aduílio Mendes e Monique Pessoa, mas acham-se no direito de condenar a arte deles e prescrever que se ouça alguém que tenha por sobrenome, Caymmi.


Deve ser mesmo difícil sair dos cochichos da Marisa Monte, para a plenitude de Monique Pessoa, que traz o poder de quebrar a barra do dia com a sua voz. Imagine  trocar os bocejos de João Bosco pelo belting de Aduílio? Seria o mesmo que trocar o brioche pela macaxeira com manteiga de garrafa. Não, nem todo mundo está preparado para isso, acredite.


Ao serem perguntados se não estariam sendo preconceituosos chamando a música de um povo de “forró de plástico” eles se defendem afirmando que não, porque amam Luiz Gonzaga. Acaso eles não sabem que o velho Lua também sofreu racismo cultural por toda a sua carreira? Por ser negro, sertanejo e forrozeiro? Agora, é fácil dizer que “ama Gonzaga” mas lá na década de 1950 não era bem assim que a elite cultural tratava o rei do baião. Ou tem alguma parceria entre Luiz Gonzaga e Tom Jobim? Luiz Gonzaga e Vinícius de Moraes? No máximo eles eram condescendentes com a música de Luiz Gonzaga, respeito é outra coisa, muito diferente.


Os mais versados no socialismo de boutique, dizem que o “forró de plástico” é uma música descartável, feita unicamente para manter a indústria cultural dando lucros. Como já foi citado anteriormente, a Arte caminha junto de nossa vida, não há uma e outra coisa. Nossas memórias estão impregnadas de música e pouco importa se essa música é a que a elite cultural do país quer que escutemos, ou não. Um adeus ao som de Meio Dia é o mesmo que ao som de Wave. Uma chegada ouvindo Calcinha Preta é a mesma escutando João Gilberto. Não condenem os sentimentos de uma geração inteira, não digam que as vivências de trabalhadoras e trabalhadores que mantêm esse país de pé são inferiores às suas.


Mas se mesmo isso não for suficiente, que tal voltar a música mesmo? Sim, ouvi-la, única e exclusivamente por ouvir. Sem ter medo que outros de seu convívio social descubram que você gostou de uma interpretação de Aduílio Mendes ou de Monique Pessoa. Depois, veja a história de vida deles, do quanto amam e se dedicam à Arte do Canto e de como estão abertos a novas experiências musicais. Não pedimos muito, apenas que escute, só isso, escute.


Diadema - São Paulo- Aparecido Galindo, escritor.


 
 
 

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