A ESCOLA - CONTO
- Aparecido Galindo
- 12 de jan.
- 3 min de leitura
Todos os dias esperava as crianças voltarem da escola na cancela e ficava ali, olhando o caminho estreito com os ouvidos no meio do mato. De lá vinham os sons, o estalar dos avoadores, o pipoco da bage da catingueira, o canto das juritis e outras vozes que ele já conhecia.
Gostava de se pendurar na cancela, para o desespero dos vaqueiros, que tinham que apertar novamente os parafusos antes que tudo viesse ao chão. Ralhar, até que ralhavam, mas o menino tinha mais cabeça para decifrar canto de passarinho do que para lembrar-se de conselhos.
Brincava com as ponta-baía, segurando-as na mão e perguntando o paradeiro de alguém. — Ponta-baía, ponta-baía, onde está Maria? A pupa de lagarta, então, virava a parte superior de um modo aleatório, quando isso coincidia com a direção do caminho da escola, ele vibrava.
— Sábado vamos te levar à escola!
Foi o que disseram logo após ele obter um bom presságio da ponta-baía. Desceu da cancela e foi contar a novidade em casa, onde ao seu ver, todos já sabiam, menos ele. — Mas já é para estudar? — Não, é para o encerramento do ano. — Era uma festa, pensou. — Para o ano, você começa! — Para o ano, para o ano, catou os dedos da mão e começou a contar. Sabia ir até o dez, nunca além disso. Estavam no tempo de queimar as brocas, depois era o da igreja matriz ser enfeitada com luzes coloridas, então plantariam o jerimum e a melancia, só depois de tudo isso, voltariam as aulas.
E quanto ao sábado? Era o dia de conhecer a escola, faltava muito? O dia em que lhe deram a notícia era dia do Santa Cruz jogar no rádio, depois viria o dia em que se levava o queijo na cidade, depois o dia de cortar a vassoura de sacatinga para botar para murchar, para aí sim, chegar o sábado.
Entre um canto do nambu pé-roxo e outro, nem percebeu que o sábado, fez-se dia. Acordou com o cheiro do terreiro sendo varrido. Aquela poeirinha fina entrava em suas narinas, fazendo-o espirrar. Saltou da rede, todos já estavam de pé, com o leite do cuscuz fervido e o café passado.
Naquele dia os passarinhos vieram para vê-lo sair. — Estou indo a escola! — Disse ao galo de campina que o acordava todas as manhãs. Não explicou que era só uma visita, o pássaro na certa iria caçoar dele. Fez o mesmo com o bem-te-vi do umbuzeiro e com o xofreu do mulungu. — Vou à escola. — cochichou para a velha lagartixa que vivia na porteira, a anciã apenas balançou a cabeça com um ar de aprovação, o que o deixou orgulhoso.
Afora as pessoas que ele não conhecia, a escola era muito parecida a sua casa: sala, cozinha, terreiro, cancela. Tinha um negócio esquisito na parede. — É ali que a gente escreve. — Alguém disse, além dos livros. Não muitos, alguns poucos, bastante usados e cheios daqueles tracinhos que os adultos o ensinavam a fazer quase todos os dias. — Letras, isto mesmo: letras. — Sim, aqueles trocinhos trabalhosos que deixavam a mão pesada ao ponto de quebrar muitas pontas de lápis.
Quantas brincadeiras novas vivenciou naquele dia! Muitas das quais já conhecia, mas brincar com bastante gente era outra coisa. Brincar É como chupar melancia, só presta em companhia. Banhado em suor, regressou à sala de aula, agora estava deserta. Voltou onde ficavam os livros, um muralzinho pequeno, olhou para ver se por ali não havia ninguém. Tirou um deles, abriu-o. No meio daquela tulha de rabiscos conseguiu ler alguns, fechou o livro, mas antes de devolvê-lo trouxe-o até o peito.
— O que houve menino, porque está chorando?
Culpa do suor que toda vez que escorria pela testa e lhe caia nos olhos o fazia verter lágrimas.
Aparecido Galindo - Escritor
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